quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A Ofensiva das Ardenas

Após os sérios reveses sofridos na Normandia o Alto Comando Alemão chegou a conclusão que tudo poderia estar perdido no fronte Oeste se não fosse tomada uma decisão que afastasse as forças aliadas das fronteiras do 3º Reich. Além disso, o exército vermelho avançava rapidamente no front Leste rompendo as tênues linhas alemãs.


A Preparação

Em setembro de 1944, o marechal Keitel, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o coronel-general Jodl, chefe de operações do Estado-Maior do Führer se reuniram no QG de Hitler na Prússia Oriental. Hitler então apresentou a eles a atual situação militar da Alemanha e pediu a Jodl que criasse um plano estratégico para uma grande ofensiva no oeste. Hitler queria que o ataque se iniciasse entre a área de Aaachan e o sul da fronteira da França e Luxemburgo. O local era favorável devido ao seu retrospecto tático. Em 1940 os exércitos alemães entraram na França utilizando-se dessa rota. Aplicando a Blitzkrieg levaram os exércitos francês e britânico a uma derrota vexatória.

Segundo a diretiva do Führer era necessário que se fossem formadas 25 novas divisões. Outras 15 deveriam ser recompletadas. Além disso, entraria em atividade o 6º Exército Panzer SS composto por mais 14 divisões; todas SS. Muitos generais acreditavam que tais medidas fossem impossíveis de serem alcançadas. Que só por milagre a Alemanha poderia repor metade das perdas que sofrera naquele front. Mas para surpresa dos céticos a produção bélica alemã atingiu índices sequer sonhados, mesmo sobre continuo ataque de bombardeiros aliados. Recorrendo ao que restava do potencial humano, usando todos os capazes para desempenhar funções militares, entre eles rapazes de dezesseis anos e maiores de quarenta e cinco. O Alto Comando do Exército conseguiu repor os efetivos das divisões desfalcadas e ainda conseguiu criar 28 novas divisões de Volksgrenadier (Infantaria Popular). Até mesmo as reservas móveis que haviam sido destruídas conseguiram ser repostas para poderem entrar em ação.



O Comando

Quatro Exércitos alemães seriam empregados na ofensiva das Ardenas. Dois panzer e dois regulares. Para o comando da operação foi designado o Marechal Von Rundstedt, comandante em chefe do Oeste, para o comando do grupo de exércitos B, foi chamado da frente oriental o marechal Model. O 7º Exército era comandado pelo general Brandemburger, general Von Manteuffel foi designado para o comando do 5º Exército Panzer, Joseph Seep Dietrich, um dos mais antigos colaboradores de Hitler, assumiu o comando do 6º Exército Panzer SS. Como reserva da força atacante estaria o 15º Exército comandado pelo coronel-general Gustav von Zangen . No total seriam empregadas 48 divisões em combate, por 3 eixos de ataque diferentes.



O Plano

Para neutralizar a ação das forças aéreas aliadas, a operação seria ativada em fins de novembro. Pois estando os céus repletos de densas nuvens em razão das nevascas os aviões aliados estariam impedidos de operar.

O plano geral de ação baseava-se nas clássicas linhas da Blitzkrieg, após tremenda barragem inicial de artilharia, tropas de assalto blindadas e motorizadas romperiam a linha americana em doze lugares, criando furos onde as colunas de infantaria se despejariam. As tropas blindadas então avançariam rapidamente pela acidentada região das Ardenas sem dar atenção a seus flancos e capturariam pontes sobre o rio Mosa. Essa primeira fase da operação precisava ser executada dentro do cronograma do alto comando. Agilidade e rapidez eram palavras de ordem, tudo precisava ser realizado antes que os aliados pudessem recuperar o equilíbrio.

Uma vez cruzado o Mosa teria inicio a segunda fase da ofensiva: um avanço em duas pontas na direção noroeste, para Antuérpia (o principal porto de abastecimento das forças aliadas), O ataque do grupo de Exército B seria secundado por outro feito pelo 19º Exército do general Student, na Holanda e quando tomados Antuérpia e o estuário do Escalda, as forças aliadas na Europa estariam cortadas em dois, sendo que seus 4 exércitos no norte (1º e 9º americanos, o 2º britânico e o 1º canadense) poderiam ser destruídos. Assim o governo alemão em vantagem tática poderia propor aos aliados um processo de paz em separado. A Alemanha poderia então transferir todas as suas forças para o Leste e assim aniquilar o exército vermelho.



O Inicio da Batalha

Muitos problemas logísticos tornaram impossível a data original, (20 de Novembro), levando Hitler a concordar com vários adiamentos. Após a resolução de tais problemas se fixou uma hora inalterável: 5:30h de sábado 16 de dezembro de 1944.

O principal peso da blitz (8 divisões de infantaria e 5 blindadas) foi reunido contra apenas 72 Km da frente americana, defendidos por nada mais que uma divisão blindada desfalcada e 4 divisões de infantaria que haviam sofrido sérias baixas em Hurtgen.

Aproximadamente 700 peças de artilharia, leves, médias, pesadas e howitzers e 340 lançadores múltiplos de foguete abriram fogo contra as posições americanas.

Os 5º e 6º Exércitos avançaram pelas Ardenas passando por cima das tropas americanas. Já nas primeiras horas do avanço germânico, diversas posições americanas haviam caído. Milhares de soldados americanos foram feitos prisioneiros. Outros tantos bateram em retirada.

Uma das poucas unidades americanas a resistir aos reveses alemães foi o 110º Regimento de Infantaria. Essa unidade estava estacionada a oeste do rio Our. Por estar numa posição privilegiada para a defesa o regimento espalhou suas tropas em seis setores distintos que seriam utilizados pelos alemães na travessia do rio. Três pontes numa frente de 5 Km precisariam ser defendidas a qualquer custo.

A situação tática demonstrava que um forte ataque alemão podia atravessar o Our em qualquer setor do 110º de Infantaria, pois a defesa, muito espalhada, não poderia detê-lo. O que seria possível no máximo era atrasar a velocidade do ataque até a chegada de reforços. Apesar da heróica resistência o 110º Regimento de Infantaria que durante 4 dias de combate enfrentou sozinho 3 divisões alemãs acabou se rendendo.



Cidades Chaves

O principal objetivo alemão era conseguir o controle da rede rodo-ferroviária o mais depressa possível, não só para seu próprio uso, como para impedir que os americanos despejassem reforços trazidos do norte e do sul. Para controlar as comunicações das diversas rotas seria preciso capturar e defender quatro centros rodoviários: Malmedy, Saint Vith, Houffalize e Bastogne e se possível cumprir a rígida tabela, as quatro cidades belgas deveriam cair no primeiro ou no segundo dia de operação.

Pelo planejamento operacional do Grupo de Exércitos B a captura de Malmédy ficaria a cargo do 6º Exercito Panzer SS. As outras três cidades seriam tomadas pelo 5º Exército Panzer.

Panzers alemães em avanço para o interior da Bélgica


Saint Vith é o ponto central de cinco importantes rodovias e de três ferrovias (que havia sido alemã até ser entregue a Bélgica após a 1ª Guerra Mundial e onde pelo menos metade dos habitantes se ergueriam em vivas quando as tropas da Wehrmacht retornassem), era o primeiro objetivo do ataque da ala direita do General Manteuffel.

Houffalize, cuja aproximação seria feita pelo leste, ao longo de estradas estreitas e difíceis, deveria ser tomada pela 26ª Divisão Volksgranadeira junto com a região de Laroche e as pontes do Mosa, tudo sendo executado pelo ataque dirigido ao centro da formação do 5º Ex Panzer.

Cerca de 20 Km mais ao sul encontrava-se o ultimo e mais importante dos centros estratégicos a serem conquistados, Bastogne, o ponto mais distante da linha de partida do 5º Exército.
A posição geográfica de Bastogne é muito peculiar, pois além de ser um importante anel rodo-ferroviário, com sete rodovias cruzando a cidade, existe dois rios que cortam os subúrbios. Bastogne também se encontra numa posição elevada, impossibilitando o ataque relâmpago. Mas pelo plano diretor de Hitler, Bastogne era um alvo a ser tomado a qualquer preço. A cidade tinha de ser capturada até o segundo dia, no máximo, e defendida de quaisquer contra-ataques, pois sua importância residia não só no fato de ser a chave para a rede rodoviária leste-oeste, vital para o avanço da ala esquerda do general Manteuffel, como também se os americanos pudessem defende-la, Bastogne se transformaria no trampolim para a contra-ofensiva aliada.


O Drama dos Aliados

Em dezembro de 1944 ninguém da esfera de comando aliada esperava uma ofensiva alemã. Claro que havia relatos por parte da seção de inteligência que os alemães já haviam se recuperado da derrota na Normandia e das perdas durante a retirada pelo norte da França. Mas uma ofensiva de grandes proporções estava fora de qualquer plano de contingência do QG supremo aliado. Surpreendentemente também foi o local por onde avançaram as forças alemãs, cheio de ondulações e recoberto de florestas.

Carecendo de reserva estratégica real, pois a grande maioria das suas forças estava em operações ofensivas, o general Eisenhower decidiu usar as duas divisões que tinha na reserva, a 7ª Blindada e a 101ª Paraquedista. Além disso, ordenou que Patton enviasse a 10ª Blindada para as Ardenas, o que foi feito apesar dos protestos do general comandante do 3º Exército.

Incapaz de fazer outra coisa pelo menos de imediato, senão dar forma aos seus contra-reforços, Eisenhower tentou obter mais reposições de infantaria para as divisões que defendiam a frente. Ele percorreu as instalações da Zona de Comunicações, as empenhadas em operações de abastecimento, à procura de homens que estivessem dispostos a receber treinamento para combaterem na infantaria. Ele convidou os soldados negros que estavam servindo em unidades segregadas para se apresentarem como voluntários para o combate integrado.

Havia leis de segregação racial nas forças armadas americanas. Os soldados negros eram considerados aptos apenas para trabalharem como motoristas de caminhões ou outras atividades logísticas. Claro que havia exceções, uma divisão de infantaria negra (92ª DI) estava lutando na Itália e várias unidades blindadas e de artilharia integradas apenas por negros batiam-se na Europa Ocidental.

Porém o convite feito pelo General Eisenhower aos soldados negros para que entrassem em unidades brancas em absoluta igualdade de condições sofreu sérias restrições pelo general Walter Bedell Smith chefe do Estado-Maior de Eisenhower. Citando regulamentos que estipulavam a separação das raças no exército americano, Smith insistiu que a integração dos negros em unidades de combate com brancos seria considerada ofensiva pelo público americano. Além disso, tal atitude indicaria ao inimigo que a ofensiva das Ardenas pusera o comando aliado a beira do pânico.


Os Comandos de Skorzeny

Otto Skorzeny era austríaco, engenheiro civil. Em 1938 com anexação da Áustria, incorporou nas SS com o posto de tenente sendo admitido no Leibstandarte SS (a guarda pessoal de Hitler). Em 1943 Skorzeny protagonizou uma das maiores façanhas da 2ª Guerra Mundial. Com a invasão aliada na Itália. O Marechal Badoglio e outros membros do conselho fascista depuseram Mussolini e o esconderam. Hitler então ordenou que Skorzeny localizasse-se o Duce e o enviasse para Berlim. Durante dois meses Skorzeny já no posto de major secretamente fez investigações pelo interior do país. Toda a operação precisava ser discreta, pois apesar do novo governo italiano demonstrar uma certa simpatia pelos aliados, no papel ainda faziam parte do Eixo.

Em setembro de 1943 Skorzeny descobriu que Mussolini era feito prisioneiro no Gran Sansso um hotel nos Alpes italianos. Com uma força reduzida de paraquedistas Skorzeny tomou o hotel, rendeu a guarnição italiana e resgatou Mussolini sem dar um único tiro.

Por essa e outras ações de comandos Skorzeny foi escolhido para comandar um grupo de operações especiais da SS. Com o planejamento da Ofensiva das Ardenas Skorzeny recebeu ordens para treinar um grupo de comandos que deveriam atuar por trás das linhas aliadas. O curioso é que todos os integrantes dessa força de comandos deveriam falar inglês fluentemente. Foram recrutados voluntários por unidades de todas as frentes. Durante dois meses esses comandos tiveram que aprender a ser americano. Conhecer história, geografia, conhecimentos gerais e se desgermanizar. As continências e o famoso bater de calcanhares deveriam ser esquecidos por esse grupo de comandos especiais.

Skorzeny

Tais comandos seriam inseridos na retaguarda aliada, usando uniformes e veículos americanos. Sua principal missão seria causar prejuízos as comunicações. Eles deveriam sabotar pontes, depósitos de munição, cortar fios telefônicos, destruir geradores de energia, trocar sinais de trânsito entre outras ações.

Mas como acontece com a maioria das ações desse tipo, o inesperado aconteceu. Um grupo de 4 homens que estava para sabotar um sistema de rádio entrou acidentalmente num campo minado. Quando os corpos foram resgatados a equipe médica descobriu por baixo das vestimentas americanas o uniforme de campanha padrão da SS.

Logo a notícia se espalhou aumentando ainda mais a ansiedade de todos. Surgiram boatos que esses alemães em uniformes americanos, pretendiam assassinar o Comandante em Chefe Eisenhower. Isso provocou enorme esforço no sentido de aumentar a segurança no campo americano. Policiais militares paravam veículos por toda parte e faziam perguntas especiais que identificavam os americanos. Mesmo usando desse ardil, centenas de americanos natos foram presos por suspeita de integrarem a brigada de Skorzeny. Entre eles o Tenente-General Omar Bradley comandante do 12º Grupo de Exércitos que se deslocara para Versalhes e insistiu por uma audiência com o comandante supremo.

Os alemães, em uniforme americano capturados eram fuzilados de acordo com a convenção de crimes de guerra de Genebra.



Massacre em Malmedy

O 6º Exército Panzer de Dietrich possuía 14 divisões, sendo 5 blindadas (1ª, 2ª, 5ª, 9ª e 12ª) 4 divisões de infantaria blindada (16ª, 17ª, 18ª e 38ª) e 5 de infantaria motorizada .

Tendo como missão à tomada das pontes sobre o Mosa e a conquista de Antuérpia, o 6º Ex precisava empregar grande velocidade. Como ponta de lança foram organizadas duas colunas; uma seguiria pelo flanco esquerdo liderada pela 1ª Divisão Panzer SS (Leibstandarte) seguida pelas 16ª e 17ª Divisões Panzegranadeiras SS. A coluna da direita concentrava a maior parte das divisões blindadas. Sua missão: dar proteção de flanco contra possíveis ataques do 1º ou do 9º Exércitos americanos.

Espalhando uma onda de terror em seu avanço as divisões SS levaram a derrota todas às unidades que se punham ao seu caminho. A coluna da 1ª Divisão Panzer deveria tomar Malmedy conforme pré-estabelecido pelo plano geral da ofensiva.

Malmedy tornou-se palco de uma das piores atrocidades da guerra. O massacre de Malmedy que chocou as forças aliadas fez Eisenhower jurar que levaria todos os responsáveis a julgamento ao fim da guerra. Tal julgamento está pormenorizado nos documentos e arquivos do Tribunal de Nuremberg.

Conta que por volta do meio-dia do domingo 17 de dezembro os trens de artilharia e o comando de combate R da 7ª divisão blindada americana estavam indo de Eupen para a área de reunião divisional próximo a St. Vith, percorrendo pelo sul, um caminho que deveria estar bem atrás do local da luta. Porém, ao mesmo tempo a ponta de lança do grupo de batalha da 1ª Divisão Panzer SS ia de Moderscheid para Stavelot. Havia um cruzamento no oeste aonde fatalmente as duas colunas se cruzariam.

Os tanques da 7ª divisão chegaram lá primeiro e avançaram pesadamente para Ligneuville; alguns minutos depois que o último tanque americano desapareceu por trás de uma elevação, o primeiro dos veículos blindados do Leibstandarte passou logo a leste dessa encruzilhada. Os caminhões de artilharia da 7ª Divisão Blindada deveriam estar passando naquele momento, porque na formação do comboio seguiam logo atrás dos tanques. Foi quando os meia-lagartas e tanques da SS abriram fogo levando vários caminhões à destruição. Os soldados americanos surpresos saltaram dos caminhões e os que não foram abatidos pelos tiros e bombas se jogaram nas valas próximo da estrada, sendo logo presos, desarmados e colocados num campo, ao lado da rodovia. Para que as tropas alemãs que vinham mais atrás pudessem encarregar-se deles.

Os soldados americanos capturados esperaram tranqüilamente, vendo os meia-lagartas, motocicletas, tanques e canhões propulsados passarem para oeste. De vez em quando a coluna parava, e americanos e alemães fitavam-se mutuamente. Depois de umas duas horas, alguém num meia-lagarta disparou sua pistola contra os prisioneiros americanos.

“Fiquem firmes! – bradou um oficial americano. Não corram....

Mas logo depois, outra pistola disparou e então as armas automáticas foram assestadas para o grupo de homens atônitos e indefesos. Em pouco tempo, restava um monte de corpos, alguns se contorcendo em dores; outros inertes. Pelo menos 96 prisioneiros foram mortos. Os que sobreviveram, fingindo-se de mortos conseguiram, mais tarde fugir e terminada a guerra, serviram de testemunhas contra seus algozes.

soldados americanos mortos em Malmedy

O massacre de Malmedy foi severamente punido em Nuremberg. Muitos dos oficiais e graduados acusados pelo ato desonroso foram condenados e executados, entre eles o cabo George Fieps, que disparou o primeiro tiro em Malmedy.


Bastogne

Ë impossível falar da batalha do Bolsão, sem fazer alusão ao cerco de Bastogne. O plano diretor do Alto Comando Alemão previa que Bastogne fosse capturada o mais rápido possível. Por ser um importante anel rodo-ferroviário tanto os aliados, quanto os alemães precisavam da cidadezinha belga para servir de ponto de convergência estratégica.

Com a avalanche provocada pelas forças alemãs. O SHAEF (Quartel General das Forças Expedicionárias Aliadas) precisou desesperadamente fazer planos de contingência e assegurar a posse de Bastogne. Com a carência de tropas Eisenhower resolveu empregar a 101ª Divisão Aeroterrestre (paraquedista) para cumprir tal missão.

Utilizando-se de caminhões a 101 se deslocou para Bastogne na noite de 17 de dezembro. Para os paraquedistas amontoados nos caminhões, Bastogne era apenas uma cidade da área de retaguarda onde havia um QG de corpo (general Middleton comandante do 8º Corpo de Exército já havia instalado seu QG em Bastogne) era portando um local longe da zona de combate. Ninguém poderia imaginar que o nome daquela cidade estava prestes a fazer parte da história da divisão e da própria história dos Estados Unidos.

Tendo sido retirada tão recentemente da Holanda após dois meses de luta que lhes havia custado cerca de 4500 baixas, a 101ª Divisão estava em processo de recompletamento, por isso era opinião geral na divisão que seriam relegados a missões secundárias.

Claro que para o comando geral, a 101ª apesar das baixas sofridas era sem duvida uma força de primeira linha. Tropas de elite prontas para serem empregadas. Além disso, a dramática situação exigia o emprego de todos para deter o rolo compressor germânico.

Para transportar os doze mil homens da divisão até Bastogne foram necessários mais de 600 caminhões. Tão logo chegou a cidade, o general McAuliffe e seu oficial de operações, tenente-coronel Kinard, fizeram apressadamente um reconhecimento do terreno. A divisão foi então posta numa área avançada.
Postos de defesa nos suburbios de Bastogne

Além da 101 paraquedista, participaram da defesa da cidade elementos da 10ª Divisão Blindada e uma força mista formada por sobreviventes da 28ª Divisão de Infantaria. No total aproximadamente 18.000 homens fariam a defesa de Bastogne.

Os alemães por sua vez lançariam 4 divisões contra a cidade. Do 7º Exército foi destacada a 5ª divisão de Infantaria Paraquedista. Porém a principal força contra Bastogne veio do 47º Corpo Panzer (5º Ex Panzer), composto da 26ª Divisão Volksgrenadier, 2ª Divisão Panzer e a Divisão Panzer Lehr, perfazendo assim mais de 64.000 atacantes.

As primeiras tropas alemãs começaram a atacar na noite do dia 19 de dezembro. A 2ª Divisão Panzer desfechou um ataque poderoso nas linhas a leste da cidade. Apoiada por infantaria, 12 tanques Pantera avançaram furiosamente sobre a linha de defesa do 506º Regimento Airborne. A luta acirrou-se. Durante três horas os paraquedistas dispondo de morteiros, metralhadoras, canhões anti-tanques e bazucas além de suas armas individuais conseguiram deter os alemães.

Um esquadrão de tanques da 10ª Divisão foi deslocado para dar apoio aos defensores neste setor. Sucessivos ataques foram repelidos pelos defensores. Muitos jovens panzergranadeiros foram mortos ou feridos, embora valentes sua inexperiência custava-lhes muito caro.

Na manhã do dia 20 de dezembro outros ataques alemães se sucederam. Tropas da 2ª Divisão Panzer atacaram por todo o perímetro de defesa. Com a 5ª divisão atacando pelo sudeste e a 26ª atacando pela posição nordeste; objetivam os alemães colocar pressão na linha e rompe-la. Porém os paraquedistas estavam decididos a não ceder. Uma resistência obstinada manteve os atacantes longe da linha. Uma bateria de 3 canhões de 105mm atirando com granadas de alto explosivo conteve os panteras da 2ª divisão, seus tiros certeiros mantiveram a posição por todo aquele dia.

Na quinta-feira dia 21 os nazistas lançaram nova arremetida. A situação por todo o perímetro defensivo parecia critica. Após intenso fogo de artilharia, tropas das 26ª e da 5ª divisões atacaram Bastogne por 4 lados diferentes. A intenção dos atacantes era saturar a linha inimiga com intenso fogo, em seguida lançar forças blindadas e assim romper as defesas americanas. Os defensores, porém castigaram o avanço alemão, infringiram sérias baixas ao inimigo. Tanques Shermans com os “cascos baixos” destruíram 9 tanques panteras. A ação desses blindados americanos e o renovado esforço da infantaria mais uma vez frustrou o ataque.

Apesar da tenaz resistência, um sentimento de abandono passou a contagiar os defensores. Bastogne estava sitiada, a reserva de suprimentos estava muito abaixo, o frio cortava a alma e a carne dos combatentes. A munição estava quase esgotada. Alguns acreditavam que talvez a única medida sensata fosse a rendição, outros, porém acreditavam que o resgate estava a caminho. Nunca o espírito de liderança se fez tão necessário. Os oficiais subalternos (capitães e tenentes) e seus sargentos através do incentivo e persuasão conseguiram manter o denodo dos defensores.


O ataque da Panzer Lehr

Na manhã do dia 22 de dezembro duas colunas de 16 tanques apoiados por um batalhão de Panzergranadeiros da Divisão Panzer Lehr atacou a linha norte de Bastogne. Por volta de 8 horas da manhã a luta era muito acirrada. Um grupo de paraquedistas conseguiu deter o ataque dos panzers a menos de 150 metros da linha. Intenso fogo de morteiros, canhões antitanque e de bazucas somados com a falta de visibilidade causada por um nevoeiro fez com que os alemães mantivessem os tanques recuados.

Duas horas depois provocados insistentemente pelo comando a atacar, os tanques alemães aventuraram-se a prosseguir. No avanço oito deles foram destruídos, pelas bazucas dos paraquedistas e por ação dos destruidores de tanques (canhões autopropulsados americanos).

A Divisão Panzer Lehr era parte integrante das forças que deveriam atacar Bastogne. Comandada pelo veterano general Fritz Bayerlein Nos primeiros dias se manteve na reserva. Mas como o anel defensivo não se quebrava, seus blindados foram empregados como uma segunda onda contra a brava resistência dos paraquedistas americanos.

Os grupamentos mistos de combate (infantaria e tanques) avançavam em intervalos cada vez menores. Dois batalhões panzergranadeiros avançaram pelo bosque que se situava no lado leste da cidade. Ali encontraram uma linha bem fortificada. Intensa barragem de fogos atormentaram os atacantes. Bombardeio de canhões de 150mm do batalhão de Artilharia da 101 dizimou a infantaria alemã, enquanto que paraquedistas munidos de bazucas e canhões sem recuo abriam fogo contra os blindados.

Naquela noite os alemães resolveram mudar de tática. Escolheram um único ponto da linha a ser rompido, em seguida utilizando-se de fogos de canhões 88mm, morteiros de todos os calibres e de lançadores múltiplos, fizeram disparos indiscriminadamente sobre esse ponto. A idéia era saturar a linha nesta localidade e em seguida num lance rápido furar a linha defensiva entrar em Bastogne e eliminar a resistência já dentro da cidade.

Precisamente às 22 horas toda a artilharia alemã disparou contra o ponto leste da cidade. Esta posição era guarnecida pelo 2º batalhão do 506º regimento airborne. Durante mais de 2 horas as bombas caiam sobre as posições americanas. Foram feitos aproximadamente 1200 disparos de artilharia. Aos 00:15 minutos de 23 de dezembro 3 batalhões de panzergranadeiros atacaram. Uma luta renhida foi travada pela posse da posição. Os contendores lutavam como leões por sua presa. As baixas de lado a lado eram muito grandes. A avalanche de fogos de artilharia havia desorganizado o sistema defensivo da 101. Por muito pouco a linha não caiu. Isso se deve a mui feliz idéia do Coronel Robert Sink ter sugerido que oito tanques da 10ª divisão formassem uma força de ataque móvel que deveria servir de reserva tática do 506º Regimento. Foi essa força junto com os paraquedistas das companhias D e E que mais uma vez frustraram o ataque alemão.

Ao amanhecer os paraquedistas recuaram 500 metros para o interior da linha. Ali construíram novas trincheiras e espaldões para fortificar as defesas mais uma vez.


O Ultimato de Manteuffel

Apesar de não conseguir capturar a cidade, o comando alemão estava em geral satisfeito com a situação de Bastogne, pois tendo cortado todas as estradas de norte a sul e avançado suas colunas blindadas para os subúrbios. A cidade estava virtualmente cercada.

No final da manhã do dia 23 de dezembro uma embaixada composta por 4 oficiais alemães empunhando uma grande bandeira branca se dirigiu a linha americana. Esse grupo tinha como missão levar uma proposta de rendição ao comando americano em Bastogne. Na verdade o documento exigia do comandante americano uma rendição honrosa, do contrário todo um corpo de blindados e seis batalhões de artilharia aniquilariam as tropas sitiadas na cidade. O documento ainda ressaltava que as baixas entre os civis seria fatalmente elevadas e que toda responsabilidade cairia sobre o comando americano.

Os alemães concediam aos americanos duas horas de prazo para se decidirem; os emissários deveriam ser libertados as 14:00 h daquele dia, o mais tardar, porém o ataque só se reiniciaria as 15:00 h

Nuts (bolas, necas ou está louco, depende da tradução) foi à resposta do general McAuliffe. Os germânicos não entenderam foram prontamente informados que a resposta era não a rendição. O mais graduados deles, um major da Panzer Lehr, retrucou que como trouxera um documento formal, tinha o direito de levar uma resposta por escrito. Então em letras garrafais McAuliffe escreveu NUTS e entregou aos enviados alemães.

Quando o major alemão leu a resposta ficou indignado e disse: “Nós mataremos muitos americanos. ....isto é guerra”. De pronto o Coronel Harper respondeu: “Se vocês continuarem atacando mataremos todos os desgraçados alemães que tentarem penetrar nesta cidade”. Com isso os dois oficiais saudaram-se formalmente.

Quando a noticia da oferta e recusa de rendição começou a circular pela cidade, muitos combatentes começam a bater palmas de alegria. Morrer sim, render-se jamais.

O principal ataque alemão naquele dia foi desfechado ao entardecer, partindo dos bosques situados ao norte 24 tanques da Panzer Lehr e 12 da 2ª divisão Panzer seguidos de tropas de infantaria da 26ª Divisão Volksgrenadier cerraram sobre as defesas de Bastogne. A defesa dos americanos ali era escorada por 8 canhões do 420º Regimento de Artilharia Blindada, 2 companhias mistas de fuzileiros e sapadores, uma companhia de paraquedistas do 502º Regimento Airborne e 6 tanques Shermans.


Mais uma vez uma luta infernal foi travada entre americanos e alemães Os Long Horn bombardeavam diretamente os panteras e tigres das divisões panzer. Os Shermans fizeram disparos nos blindados e nas tropas de infantaria. O poder de fogo enfrentado pelos alemães era muito pesado. Depois de mais de 1 hora de escaramuças e com grande perda de tanques e soldados os atacantes se retiraram.

Durante todo o dia 24 houve serias lutas por todo o perímetro defensivo. Naquela mesma noite o céu se abriu então foi à vez da Luftwaffe entrar em ação. A cidade sofreu um sério bombardeio da aviação alemã. Até mesmo o hospital aonde eram tratados os feridos fora atingido pelas bombas das aeronaves de Hitler.

Com a munição bastante reduzida e com os alemães bombardeando continuamente por toda a noite, os homens entrincheirados na linha de frente se perdiam em pensamentos alguns lembravam de casa, outros de suas namoradas, mas com certeza o pensamento que mais afligia aqueles homens era quando se daria o inevitável ataque alemão, até quando poderiam resistir a tudo aquilo.

Na manhã de natal, os defensores tiveram uma bela surpresa, ao clarear e desanuviar-se por completo o céu, sobre Bastogne, os aviões aliados começaram a deixar cair munições, combustíveis e víveres. A situação principiava, portanto, a sofrer uma reviravolta a favor dos americanos sitiados. No correr do dia, 140 toneladas de víveres e munições foram jogadas sobre a cidade por 241 aviões, com tal precisão que 95% da carga caíram sobre as linhas dos sitiados.

Uma coisa ficou bem clara para o general Manteuffel, o valor combativo dos defensores faria com que a tomada de Bastogne custasse muito caro para as tropas do 5º Exército Panzer.


A reação dos Aliados

Antes da chegada dos alemães a Bastogne, o Alto Comando aliado já planejava o resgate dos defensores da cidade belga, bem como armar uma contra-ofensiva de peso que faria os alemães retroceder e por fim acabar com a ultima reserva móvel dos hunos.

Em 19 de Dezembro os principais comandantes de campo aliados reuniram-se com Eisenhower em Verdun. Como o 3º exército do General Patton, apesar de já estar lutando dentro de território alemão, ser a única força capaz de empenhar-se na missão para resgatar os defensores de Bastogne, Georgie prontamente exigiu para si essa tarefa.

O grosso do 3ª Ex encontrava-se na área do Sarre, terceira área industrial da Alemanha, Patton logo organizou um corpo de divisões para seguir em direção ao inimigo. Na testa da formação colocou as 4ª e 6ª Divisões Blindadas, outras 4 divisões de infantaria motorizadas completariam o “grupo de combate que abalaria toda a ofensiva alemã”. A tarefa parecia quase impossível; primeiro o exército de Patton estava no meio de uma batalha pela posse do Sarre, outro problema é que Bastogne fica ha mais de 200 Km.
Mesmo um exército disciplinado teria dificuldades de sair duma batalha, andar uma longa distância e combater um inimigo que jogava todo seu destino nesta disputa. Sem contar que o 3º Exército lançou-se a contra-ofensiva em meio a uma forte nevasca.

Porém nada parecia deter o avanço da 4ª Divisão Blindada. As demais divisões americanas também seguiam céleres em socorro dos que estavam cercados em Bastogne. Tropas seguiam em caminhões ou até mesmo a pé, em marcha forçada pela neve.

Dias depois do inicio da marcha do 3º exército, houve uma melhora nas condições climáticas, a aviação aliada conseguiu agir com todo seu poderio bélico contra os panzer, fazendo os retroceder e destruindo centenas deles. Milhares de aviões da Força Aérea dos Estados Unidos e da RAF entraram em ação. Nada que se movia foi poupado. Os blindados alemães foram constrangidos a operarem apenas à noite, em meio ao gelo e a neve, o que praticamente os paralisou.

A 26 de dezembro, a 4ª Divisão Blindada americana após destroçar as linhas alemãs, penetrou em Bastogne, libertando os efetivos cercados. Patton continuo atacando. Seu avanço estratégico foi decisivo para o resultado final da batalha.

As posições se mantiveram relativamente estáveis até 17 de janeiro, mas pouco a pouco os alemães começaram a perder terreno, à medida que grande parte de seus blindados era destruída ou ficava imobilizada pela falta de combustível, que eles pensavam em roubar dos aliados. Sangrentos combates, inclusive corpo a corpo e com armas brancas, foram registrados até 18 de janeiro de 1945, data oficial do fim da batalha das Ardenas.

Porém, apenas no dia 31 de janeiro as tropas alemãs foram empurradas para mais além da linha de frente da qual haviam partido em 16 de dezembro. Esta vitória, particularmente dolorosa - quase 15 mil mortos americanos e 2,5 mil civis belgas - acelerou bastante o fim da guerra.

Hitler jogou tudo nas Ardenas. Os homens e o equipamento perdidos nesta batalha fizeram falta algumas semanas depois na defesa de seu território



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